Brasil começou a discutir uma autorização eletrônica para viagens internacionais, com integração de dados, segurança e possível identidade digital.
O planejamento de uma viagem internacional pode estar prestes a ganhar uma nova etapa digital. O Brasil iniciou, em setembro de 2026, discussões sobre a possível adoção de uma Autorização Eletrônica de Viagem (eTA, na sigla em inglês), modelo utilizado por diferentes países para fazer uma avaliação prévia de viajantes antes do embarque. O assunto foi debatido em um workshop promovido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela SITA, com participação de órgãos como Ministério de Portos e Aeroportos, Ministério das Relações Exteriores, Polícia Federal e Serpro.
A novidade, porém, ainda não é uma nova exigência para brasileiros que pretendem viajar ao exterior. O que existe neste momento é uma discussão sobre como uma eventual solução poderia funcionar no país, envolvendo segurança, proteção de dados e integração entre sistemas públicos e empresas do setor aéreo. Para o viajante conectado, a principal dúvida é o que uma eTA poderia mudar na prática e se o embarque internacional poderá ficar mais digital nos próximos anos.
O que é a eTA e por que o Brasil começou a discutir esse modelo
A Autorização Eletrônica de Viagem é uma autorização prévia vinculada aos dados do viajante e ao documento utilizado na viagem. Diferentemente de um visto tradicional, a eTA costuma funcionar como uma etapa eletrônica de verificação para determinados passageiros, permitindo que autoridades avaliem informações antes que a pessoa chegue ao aeroporto ou ao país de destino. O modelo faz parte de uma transformação mais ampla da aviação internacional, que vem combinando identidade digital, biometria, análise automatizada de informações e processos sem papel. O debate brasileiro ainda está justamente na fase de avaliar quais benefícios, requisitos técnicos e salvaguardas seriam necessários para uma eventual implementação.
O workshop realizado no Brasil reuniu representantes de diferentes instituições porque uma autorização desse tipo não depende apenas da tecnologia de uma companhia aérea. Seria necessário integrar informações de órgãos responsáveis por aviação, imigração, segurança e relações exteriores, além de estabelecer regras claras sobre tratamento e compartilhamento de dados. O Serpro informou que o debate brasileiro envolve segurança, integração de dados, interoperabilidade e proteção de dados, mostrando que a discussão vai muito além de simplesmente criar um formulário online.
Essa integração pode alterar uma das partes mais burocráticas de uma viagem internacional: a conferência de documentos. A própria IATA vem trabalhando com o avanço de processos digitais e identidade no transporte aéreo, enquanto a entidade destaca que tecnologias, dados, inteligência artificial e automação estão transformando a maneira como o setor administra riscos e operações. Em setembro, a associação também divulgou novas orientações para o uso de biometria em viagens sem contato, incluindo preocupações relacionadas à privacidade e à ética.
Para o passageiro, portanto, a possível eTA deve ser vista como parte de uma mudança maior: a viagem tende a começar cada vez mais cedo, ainda no celular ou em plataformas digitais, antes de o turista chegar ao aeroporto. Se o Brasil avançar nesse modelo, informações que hoje são verificadas em diferentes momentos poderão ser antecipadas e conectadas. Isso pode reduzir etapas presenciais, mas também aumenta a importância de conferir cuidadosamente os dados fornecidos e entender como eles serão utilizados.
A eTA já será obrigatória para brasileiros que vão viajar?
Não. Essa é a principal informação que o viajante precisa guardar neste momento. O debate divulgado pelo Serpro em 10 de setembro trata da possibilidade de o Brasil adotar uma Autorização Eletrônica de Viagem, e não de uma regra já aprovada que obrigue brasileiros a solicitar uma autorização antes de qualquer viagem internacional.
Por isso, quem tem uma viagem marcada não deve cancelar ou alterar seu planejamento por causa da discussão sobre a eTA. As exigências continuam dependendo do país de destino, da nacionalidade do viajante, do passaporte utilizado, da finalidade da viagem e do período de permanência. Para verificar documentação e regras de embarque, o passageiro deve consultar as autoridades oficiais do destino e também as orientações da Anac para passageiros internacionais.
A discussão, entretanto, merece atenção porque uma eventual implantação brasileira poderia criar uma nova camada de preparação para viagens. Em vez de descobrir somente no aeroporto se determinada informação precisa ser complementada, o viajante poderia ter parte da documentação ou da autorização analisada previamente. Para quem viaja frequentemente a trabalho ou lazer, isso poderia representar maior previsibilidade e reduzir problemas causados por informações incompletas.
Existe também uma questão importante de privacidade. Uma autorização eletrônica depende necessariamente de dados pessoais e de mecanismos capazes de confirmar a identidade do viajante, o que torna indispensável definir quem poderá acessar essas informações, por quanto tempo elas serão armazenadas e como ocorrerá o compartilhamento entre diferentes instituições. O próprio Serpro colocou proteção de dados e interoperabilidade entre os requisitos centrais do debate, sinalizando que a segurança da informação será tão importante quanto a praticidade oferecida ao passageiro.
Esse cuidado é especialmente relevante porque a digitalização não significa automaticamente que todo o processo ficará mais simples para todos. Sistemas integrados precisam funcionar corretamente, informações precisam estar atualizadas e o viajante precisa ter alternativas quando ocorrer uma falha tecnológica ou divergência cadastral. A experiência internacional mostra que a transformação digital da aviação depende tanto de infraestrutura quanto de regras claras e de suporte ao usuário.
Como a identidade digital pode transformar a experiência no aeroporto
A discussão sobre a eTA também aponta para uma possível mudança mais profunda: a expansão da identidade digital na jornada internacional. Hoje, o passageiro ainda precisa apresentar documentos em diferentes etapas, fazer check-in, passar por controles de segurança e apresentar informações novamente em determinados pontos. Com sistemas digitais integrados, parte dessas verificações pode ser antecipada ou automatizada, reduzindo a quantidade de interações necessárias durante o percurso.
A IATA vem defendendo justamente uma aviação mais conectada, na qual identidade digital, biometria e informações compartilhadas de maneira segura possam tornar o processo mais fluido. Em suas atualizações recentes, a entidade destacou novas orientações para biometria em viagens sem contato e ferramentas digitais que incorporam inteligência artificial aos processos operacionais. A associação também ressalta que a tecnologia precisa ser acompanhada de critérios de privacidade e de decisões humanas adequadas, especialmente em situações de segurança.
Para o brasileiro, uma eventual eTA poderia significar que o planejamento da viagem internacional começaria antes da compra ou do embarque, com uma etapa digital de verificação. Isso abriria espaço para aplicativos e plataformas oferecerem alertas sobre documentação, validade do passaporte e eventuais autorizações necessárias, reduzindo o risco de o passageiro descobrir uma exigência somente na hora do check-in. Também poderia facilitar a integração entre companhias aéreas, aeroportos e órgãos públicos, desde que existam regras transparentes para o compartilhamento das informações.
O cenário, porém, exige que o viajante mantenha uma postura mais cuidadosa com segurança digital. Caso sistemas desse tipo avancem, criminosos também podem tentar criar páginas falsas para capturar dados pessoais, passaportes ou informações de pagamento. Por isso, qualquer futura solicitação de autorização deverá ser feita exclusivamente em plataformas oficiais, evitando links recebidos por redes sociais, mensagens ou e-mails suspeitos.
A discussão brasileira ainda está no início, mas o movimento mostra que a tecnologia está deixando de ser apenas uma ferramenta de conveniência dentro do aeroporto. Ela passa a participar da própria preparação da viagem, da identificação do passageiro e dos processos de segurança que acontecem antes do embarque. Para quem costuma viajar para o exterior, acompanhar essa transformação será importante porque futuras mudanças poderão afetar desde o planejamento documental até a maneira de passar pelos controles aeroportuários.
O Brasil ainda não anunciou uma eTA obrigatória para viagens internacionais, e essa distinção precisa ser mantida para evitar confusão entre uma discussão técnica e uma nova exigência de embarque. O que já está confirmado é que órgãos brasileiros começaram a avaliar como uma autorização eletrônica poderia funcionar, levando em conta segurança, proteção de dados e integração tecnológica.
Para o viajante, a melhor atitude agora é acompanhar fontes oficiais e continuar verificando as exigências específicas de cada destino. Se o projeto avançar, a mudança poderá representar uma experiência mais digital e previsível, mas também exigirá atenção redobrada com dados pessoais e sites utilizados para solicitar autorizações. A tendência aponta para aeroportos cada vez mais conectados, nos quais a viagem começa no celular muito antes de o passageiro chegar ao portão de embarque.
Fontes verificáveis: Serpro — Brasil debate autorização eletrônica de viagens e futuro da identidade digital · IATA — novas orientações para operações, biometria e ferramentas digitais · IATA — World Safety and Operations Conference 2026 · Anac — informações para passageiros e voos internacionais
