Paulo Roberto Gomes Fernandes observa que o gasoduto Keystone se tornou um símbolo das tensões entre segurança energética, interesses econômicos e restrições ambientais. Em julho de 2012, a iniciativa da TransCanada de solicitar uma nova autorização ao governo dos Estados Unidos para viabilizar a ligação entre Alberta, no Canadá, e o Texas recolocou o projeto no centro do debate público e institucional.
O plano previa a construção de um gasoduto com aproximadamente 1.600 quilômetros de extensão para escoar o petróleo oriundo das areias betuminosas canadenses até o polo refinador de Houston. Por se tratar de uma obra transfronteiriça, o projeto dependia de autorização do Congresso dos Estados Unidos.
A controvérsia ambiental como eixo central do debate
Segundo a leitura feita por Paulo Roberto Gomes Fernandes, o ponto mais sensível do Keystone nunca esteve apenas na sua dimensão econômica, mas na rota escolhida para sua implantação. A travessia da região de Sand Hills, no estado de Nebraska, uma área ambientalmente protegida, transformou-se em foco de resistência de grupos ambientalistas, autoridades locais e setores do próprio governo americano.
Essa oposição forçou a TransCanada a reformular o traçado original, negociando uma rota alternativa em conjunto com autoridades estaduais e federais. A mudança ilustra como, já em 2012, grandes projetos de infraestrutura precisavam incorporar variáveis ambientais e sociais de forma muito mais intensa do que em décadas anteriores. O licenciamento deixou de ser uma etapa meramente técnica e passou a funcionar como um processo político complexo.
Dimensão econômica e interesse internacional
Ainda assim, como ressalta Paulo Roberto Gomes Fernandes, o Keystone representava um investimento estratégico de cerca de 2,3 bilhões de dólares, com impacto direto sobre a integração energética entre Canadá e Estados Unidos. A expectativa era de que, uma vez aprovado, o gasoduto pudesse ser concluído entre 2014 e 2015, ampliando significativamente a capacidade de transporte de petróleo bruto para o mercado norte-americano.
Esse potencial atraiu o interesse de empresas de diversos países, inclusive do Brasil. As conversas iniciais com companhias brasileiras haviam começado anos antes, demonstrando que projetos dessa escala tendem a mobilizar uma cadeia internacional de fornecedores, engenharias especializadas e soluções tecnológicas.
O papel das feiras internacionais na articulação de projetos
Na visão de Paulo Roberto Gomes Fernandes, eventos técnicos e comerciais desempenharam papel decisivo na articulação dessas oportunidades. Em 2012, o tema Keystone já dominava boa parte das conversas entre executivos, investidores e empresas de engenharia durante o evento, funcionando como catalisador de reuniões estratégicas e negociações preliminares.

Esses encontros internacionais permitem que projetos ainda em fase de licenciamento ganhem corpo técnico, recebam contribuições de diferentes mercados e incorporem soluções inovadoras antes mesmo do início das obras. A presença de empresas brasileiras nesses fóruns, especialmente como expositoras, reforçava a capacidade do país de oferecer tecnologias e metodologias competitivas para grandes empreendimentos dutoviários.
Projetos paralelos e pragmatismo regulatório
Outro aspecto relevante destacado por Paulo Roberto Gomes Fernandes diz respeito à estratégia da TransCanada de avançar simultaneamente em projetos que não dependiam de autorização do Congresso americano. O gasoduto interno ligando Oklahoma ao Texas, por exemplo, poderia ser iniciado de forma mais célere justamente por estar submetido a um regime regulatório menos complexo.
Essa abordagem revela um pragmatismo comum em grandes operadoras de infraestrutura: enquanto projetos internacionais enfrentam longos processos de aprovação, iniciativas domésticas funcionam como forma de manter equipes mobilizadas, capital investido e cronogramas ativos.
Lições de 2012 vistas a partir de 2026
Olhando retrospectivamente, Paulo Roberto Gomes Fernandes avalia que o caso Keystone antecipou debates que se tornariam recorrentes ao longo da década seguinte. A combinação entre pressões ambientais, escrutínio político e necessidade de segurança energética passou a moldar a viabilidade de grandes gasodutos em todo o mundo.
Em 2026, torna-se evidente que projetos desse tipo não podem mais ser pensados apenas sob a ótica da engenharia ou do retorno financeiro. Eles exigem planejamento integrado, diálogo com múltiplos stakeholders e capacidade de adaptação a contextos regulatórios complexos.
Autor: Paul Smith
