Novas ferramentas de IA estão assumindo tarefas de pesquisa e atendimento no turismo, mas decisão final ainda deve ficar com o viajante.
A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta para montar roteiros e começando a ocupar funções mais amplas dentro da indústria de viagens. Um dos movimentos mais recentes ocorreu nesta semana, quando a HotelDO apresentou uma ferramenta de IA voltada a agentes de viagens durante o Campus HotelDO 2026, realizado em Curitiba. A tecnologia foi inicialmente disponibilizada para 100 agências parceiras e pode auxiliar em tarefas como cotações, organização de leads e acompanhamento de oportunidades pelo WhatsApp. (Brasilturis)
O episódio chama atenção porque mostra uma mudança importante: a IA não está sendo usada apenas para responder perguntas do turista, mas também para automatizar etapas que acontecem nos bastidores de uma viagem. Para quem pesquisa passagens, hotéis e passeios pela internet, isso pode significar atendimento mais rápido, recomendações mais personalizadas e processos de reserva mais integrados. A dúvida agora é até onde essa transformação pode chegar e se ela realmente tornará o planejamento mais simples para o viajante brasileiro.
Como a inteligência artificial está entrando no planejamento de viagens
A principal transformação provocada pela IA no turismo está na capacidade de organizar uma grande quantidade de informações em pouco tempo. Um viajante pode precisar comparar horários de voos, localização de hotéis, duração de deslocamentos, atrações, orçamento e disponibilidade antes de fechar um roteiro. Sistemas inteligentes conseguem analisar parte dessas informações e apresentar alternativas de maneira mais rápida do que uma pesquisa manual tradicional, embora ainda seja necessário conferir preços, regras e disponibilidade diretamente nos canais de contratação.
O movimento recente da HotelDO ajuda a mostrar como essa tecnologia está sendo incorporada ao trabalho dos profissionais. Segundo a empresa, o agente de IA lançado para um grupo inicial de 100 agências atua em etapas comerciais, incluindo cotações, organização de leads e acompanhamento de oportunidades, inclusive pelo WhatsApp. A proposta apresentada pela companhia não é substituir o agente de viagens, mas retirar tarefas operacionais para permitir que o profissional dedique mais tempo à compreensão das necessidades do cliente e à recomendação de produtos. (Brasilturis)
Essa lógica pode chegar gradualmente ao consumidor final. Em vez de o viajante abrir várias abas para comparar hospedagens e montar um roteiro, plataformas poderão reunir essas etapas em uma conversa única, entendendo preferências como orçamento, período, estilo de viagem e interesses. A própria análise de tendências do Ministério do Turismo aponta que as tecnologias digitais, incluindo a inteligência artificial, estão transformando a maneira como turistas pesquisam e planejam suas viagens. Ao mesmo tempo, o órgão identifica uma valorização crescente de experiências autênticas e contato com a cultura local, mostrando que tecnologia e experiências humanas não precisam competir. (Serviços e Informações do Brasil)
O que muda para quem reserva hotel, passagem e passeios pela internet
Para o viajante conectado, uma das vantagens mais evidentes será a personalização. Em vez de receber uma lista genérica de atrações, uma ferramenta poderá cruzar preferências e restrições para sugerir um roteiro mais adequado ao perfil de cada pessoa. Uma família com crianças, por exemplo, pode priorizar deslocamentos curtos e atividades diurnas, enquanto um casal interessado em natureza pode buscar trilhas, praias e experiências gastronômicas. O ganho potencial está menos em simplesmente “ter IA” e mais em reduzir o tempo necessário para transformar informações espalhadas em um plano de viagem utilizável.
Esse avanço também pode ser importante para destinos brasileiros que desejam melhorar a experiência digital do visitante. O Ministério do Turismo mantém programas voltados aos chamados Destinos Turísticos Inteligentes e, em abril de 2026, instituiu o Programa de Inovação e Competitividade no Turismo, com objetivos que incluem disseminar novas tecnologias, fortalecer a inteligência turística, qualificar produtos e serviços e estimular a coleta padronizada de dados turísticos. Entre os resultados esperados pelo programa estão a melhoria da experiência e da satisfação do turista. (Serviços e Informações do Brasil)
Em um destino de praia, por exemplo, a tecnologia pode ajudar a combinar informações sobre atrações, horários, deslocamentos e características do visitante para distribuir melhor a demanda. Isso pode ser particularmente relevante em períodos de alta procura, quando informações desatualizadas ou excesso de visitantes em determinados pontos podem prejudicar a experiência. A inteligência turística também pode ajudar gestores a compreender fluxos e tomar decisões com base em dados, desde que exista infraestrutura adequada e regras claras para utilização das informações.
Mas existe um limite importante: IA não deve ser tratada como autoridade absoluta para decisões de viagem. Uma ferramenta pode apresentar uma informação desatualizada, interpretar incorretamente uma regra de bagagem ou sugerir um estabelecimento que já mudou de horário. Por isso, o viajante deve confirmar valores, horários, políticas de cancelamento, documentos necessários e condições de acesso nos canais oficiais antes de efetuar qualquer pagamento.
A tecnologia vai substituir o agente de viagens ou trabalhar ao lado dele?
A experiência apresentada nesta semana aponta mais para uma convivência entre inteligência artificial e profissionais humanos do que para uma substituição imediata. A HotelDO afirma que seu objetivo é automatizar tarefas operacionais e ampliar a capacidade de venda dos agentes, mantendo o papel consultivo desses profissionais. A empresa informou ainda que possui cerca de 10 mil agências ativas no Brasil e registrou crescimento de 67% nas vendas no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. (Brasilturis)
Esse modelo pode ser particularmente interessante para viagens mais complexas. Um sistema automatizado consegue acelerar pesquisas e comparações, mas situações envolvendo conexões, mudanças de voo, necessidades específicas, grupos grandes ou imprevistos podem exigir interpretação e negociação. É justamente nesses momentos que o conhecimento humano tende a continuar relevante. A tecnologia, portanto, pode funcionar como uma camada de produtividade, enquanto o profissional assume as decisões que dependem de contexto e relacionamento.
Para o consumidor, isso também pode mudar a relação com as agências. Em vez de procurar um profissional apenas quando não sabe como organizar uma viagem, o cliente poderá receber uma combinação de rapidez tecnológica e atendimento especializado. A IA pode levantar alternativas, enquanto o agente verifica a viabilidade, identifica riscos e ajusta o roteiro de acordo com aquilo que realmente faz sentido para o viajante.
Esse cenário combina com a estratégia brasileira de desenvolver destinos mais inteligentes. O Ministério do Turismo prevê ações de inovação, capacitação profissional, gestão de dados e desenvolvimento de plataformas digitais para apoiar municípios interessados nessa transformação. O programa também busca fortalecer a competitividade e ampliar o fluxo turístico dos destinos participantes. (Serviços e Informações do Brasil)
Para quem pretende viajar nos próximos meses, a principal mudança não será necessariamente encontrar “um robô que planeja tudo”, mas perceber cada vez mais recursos inteligentes incorporados aos sites, aplicativos, agências e plataformas de reserva. O viajante poderá economizar tempo na pesquisa e receber recomendações mais próximas de suas preferências, mas continuará precisando exercer senso crítico.
A inteligência artificial está avançando rapidamente no turismo porque resolve um problema antigo: a quantidade enorme de informações necessárias para organizar uma viagem. O lançamento de novas ferramentas para agentes de viagens nesta semana mostra que essa transformação já alcançou os bastidores do setor, e não apenas os aplicativos usados diretamente pelos turistas. (Brasilturis)
Para o viajante brasileiro, a oportunidade é usar a tecnologia como assistente, não como substituta da própria decisão. Comparar fontes, confirmar informações oficiais e avaliar as condições reais de cada serviço continuam sendo passos indispensáveis. Se o setor conseguir combinar IA, atendimento humano e dados confiáveis, o resultado pode ser uma experiência de viagem mais rápida, personalizada e eficiente — sem transformar a tecnologia em dona das escolhas que pertencem ao turista.
